Por que investir em áreas verdes para crianças?

As escolas têm se reestruturado, oferecendo e demandando mais dos nossos pequeninos. Essa é uma impressão geral de muitas famílias e frequentemente uma queixa dos pais. Tanto as escolas como os pais, lembram pouco de investir em momentos de descanso regulares para obtermos melhor funcionamento cognitivo e acadêmico das nossas crianças. Mas mesmo quando lembram desses pequenos detalhes, deve-se pensar qual melhor ambiente para descansar e restaurar as baterias?

Historicamente, nossos avós cresceram soltos na roça, com seus pais pouco sabendo aonde estavam ou o que estavam fazendo. Descobriam seus limites lidando com condições extremas, era natural e possível entrar com um animal, tipo um cavalo, na sala de aula. Os limites eram testados, mas as relações eram muito afetivas e promoviam correção imediata e consequências em diversos cenários. Todos na cidade sabiam ou saberiam. Hoje tudo isso é impensável!

Com o tempo as crianças deixaram de ser criadas em ambientes rurais e de interagir com a natureza e as sociedades de vilarejos e cidades pequenas. Migramos para as cidades cada vez maiores, primeiro moramos em casas até grandes e espaçosas e repletas de jardins.

Gerações seguintes viveram o aumento da violência urbana e migraram para apartamentos. Esses apartamentos, em áreas urbanas, reduziram de tamanho e estão ficando mínimos. Mesmo em cidades verdes, a onda de violência fez com que os parques centrais tornassem meras paisagens de fotos da infância daqueles que agora são pelo menos adultos.

Com as mudanças de espaços e ambientes, os meninos de outrora andavam de cavalo e viviam cheios de bichos de pé, os de hoje em dia confundem vacas com hipopótamos (acreditem, meu próprio filho fez isso!) e a fazenda produtiva e povoada de animais só mesmo no Minecraft. Crianças, adolescentes e adultos ficam cada vez mais sedentários, mais dedicados a atividades de lazer dentro de casa e que demandam menos energia.

Contudo, muitos estudos vêm surgindo e mostrando o quanto a interação com a natureza ajuda a aprender a reconhecer e regular emoções. Interagir com a natureza e ainda fazer exercícios físicos parece perfeito! Afinal, segundo a Organização Mundial de Saúde é recomendável que crianças entre 5 e 17 anos passem pelo menos 60 minutos diários fazendo exercícios físicos, incluindo treinos aeróbicos e anaeróbicos nos mais diversos ambientes. O exercício físico também tem seus efeitos benéficos já comprovados: melhora desde nossas funções executivas até a qualidade dos nossos ossos e músculos, permite criação de bons hábitos e prediz a própria realização de exercício físico na vida adulta (veja no site da própria Sociedade Brasileira de Pediatria – SBP).

Hoje convivemos com meninos estourados, com pouca habilidade em controlar suas vontades e seus tantruns, irritados e até agressivos diante de situações aparentemente simples ou dito de forma simples parecem responder a todo momento com a velha e boa pirraça. Não existem limites econômicos nem raciais para a nossa falta de regulação emocional.

A regulação emocional fala sobre nossa capacidade de aprender a se controlar, mesmo diante de situações desafiadoras e inusitadas. Isoladamente essa capacidade de regulação parece predizer nosso futuro econômico e laboral. Aqueles que se descontrolam mais, aparentemente terão piores condições de empregabilidade.

Enquanto adultos e pais temos pouco tempo, e o tempo que temos deve gerar bons resultados na interação com as crianças, educá-las e promover descanso para elas e para nós mesmos. Alguns estudos vêm mostrando que interagir com a natureza pode e deve ser uma das formas de conseguir tudo isso.

Qualquer atividade em imersão na natureza ajuda? Sim, desde pequenos parques e praças até grandes reservas naturais e turismos ecológicos, que nos fazem desligar do nosso pequeno mundo urbano e estressado. Contudo, alguns desses estudos vêm apontando que os grandes espaços verdes, como grandes reservas e parques, são ainda mais eficientes em nos permitir relaxar.

Dessa forma, em tempos de queimadas e destruição de reservas naturais é importante noticiar que até a função educacional a natureza pode ter. No momento em que funciona de reservas para animais silvestres, perigosos ou não, a natureza prove variedade de estímulos, encantamento com as belezas, aprendizado com os cheiros e ruídos, treino dos nossos sistemas de alerta.

A natureza não se contém e tem regras próprias. É preciso conhecê-las e se acostumar com elas. Não há como ignorar essas regras e a experiência e o aprendizado dessa complexidade e das ações diante da variedade se transfere para outros cenários. A natureza se mostra uma boa tutora que monitora e permite vivenciar o aprendizado por meio da experiência.

Já existem cenários feitos de projeções de vídeos em quatro dimensões que trazem nas projeções, movimentos e até cheiros, experiências sensoriais maravilhosas que mimetizam florestas tropicais, campos floridos e até savanas aonde os animais selvagens passeiam tranquilamente ao nosso lado. Por enquanto, essa experiência custa caro e exige muito deslocamento, já estando disponível em cidades como Paris, Tóquio e Xangai. Contudo, esse por enquanto é um cenário não generalizável, muito irreal e artificial.

Custa bem menos levar os filhos para uma boa cavalgada, atravessar cachoeira, pescar ou mesmo ir em pesque-e-pague. Para nós que temos chapadas, Pantanal, Amazônia e milhares de quilômetros de praias lindas, estar cem contato frequente com a natureza deveria ser a regra.

Esses passeios geram uma bagagem de experiências agradáveis, ensina respeito, demanda autonomia e responsabilidade. As histórias das onças que não foram vistas, associadas às cobras que passaram por perto e do quão indomável era o cavalo que no último passeio o conquistou irão render experiências e limites. Na natureza é claro, não dá para seguir para a próxima fase se não houver respeito. Não é tão seguro, mas viver exige respeito para que venham as novas fases. E tudo isso pode ser vivenciado e amplificado com ações relativamente simples e baratas.

 

Referências:

Wallner P. et al., Reloading Pupils’Batteries: impact of Green Spaces on Cognition and Wellbeing. International Journal of Environment Research and Public Health. 2018; 15 (6):1205.

https://www.who.int/dietphysicalactivity

http://www.sbp.com.br.  (Atividade física na Infância e na Adolescência: Guia prático para o pediatra)

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1 comentário em “Por que investir em áreas verdes para crianças?”

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