Sobre Brigas, Famílias e Escolas

Apesar de lidar com os transtornos do neurodesenvolvimento há 15 anos, ainda me emociono quando ouço histórias de escolas e grupos de pais que torturam famílias, em especial mães de crianças com um transtorno do neurodesenvolvimento em relação a alguma situação específica da criança. Nesse contexto, a criança esteve, na maioria das vezes, relacionada com alguma pequena briga ou disputa, frequentemente por manifestação de impulso ou até de agressividade. Essas pequenas confusões acontecem com mais frequência quando os tratamentos estão sendo ainda ajustados.

É claro que nenhum pai ou mãe gostaria de ver seu filho envolvido em briga ou vítima de algum conflito maior. Quem vivenciou isso sabe que as crianças agressoras são, muitas vezes, convidadas a sair da escola ou mesmo expostas para todo o grupo de mães que, frequentemente, não reagem com princípios de empatia ou mínima compreensão. É difícil compreender, mas saibam que tanto quem agride quanto seus pais sofrem tanto quanto quem foi agredido ou até mais e por mais tempo. Já ouvi algumas vezes essas crianças serem descritas como bichos, monstros e psicopatas. As pessoas se apropriam de nomes que nem sempre conhecem o conceito e tão pouco medem as implicações desses “rótulos” no longo prazo. É frequente que os pais e a criança precisem de intervenção mediante a escola e outros pais, as vezes até jurídica ou policial, para que tenham assegurado o direito de estudar. Contudo a expulsão é paulatina, vão se vencendo forças e minando as possibilidades de intervenções. E ficariam pasmos de ver que os adultos são aqueles que mais participam do processo de expulsão, pela nossa dificuldade de assumir nossa incompetência em lidar com a educação em situações complexas. Nossa inabilidade limita e restringe a possibilidade de sermos uma sociedade melhor e de aprendermos com qualquer situação, o que gera exclusão.

As crianças costumam ser mais generosas que seus pais e até professores, e compreendem que o colega passou por algo e está tentando aprender a controlar. Nenhuma criança deve ou quer ser repetidamente vítima da explosão alheia e elas sabem disso. Estratégias para auto-controle precisam ser estabelecidas de forma automática para treinamento nos momentos de calmaria. São as tais estratégias de controle de regulação emocional que incluem desde estratégias de yoga, meditação, respiração ou mesmo uso de interesses específicos em situações críticas, qualquer forma que leve pessoas a parar-pensar para depois agir. Habilidades que podem ser treinadas intensivamente em sala de aula e fora dela e que podem apaziguar o “acender do pavio” e dirimir os arrependimentos.

Essas estratégias exigem da escola, professores e pais envolvimento e educação para o processo e para as atividades perseverantes que devem ser repetidas até que se tornem rotineiras e automáticas para a criança. Acreditem ou não, os agressores comumente não querem agredir e farão esforços para incorporar as estratégias, principalmente se nós educadores demonstrarmos que as estratégias são simples e efetivas. A criança entenderá que não há espaço para a agressão e descontrole. Aprenderemos a serenidade. Aquelas crianças que seriam vítimas ficarão encantadas com o progresso, tolerantes com as diferenças e repletas de repertórios para controlar situações adversas. Aqueles pais que facilmente identificam monstros e bichos nos filhos dos outros, definitivamente, aprenderão que seus filhos podem ser melhores que eles mesmos. E como raios acontecem e caem em qualquer terreiro, espero que aprendam a lidar melhor com os problemas quando eles acontecerem no seu quintal de intolerâncias.

Os anos passarão e as famílias que resistiram e não precisaram mudar suas crianças de escola, círculo social, pois encontraram pais e professores que encararam o desafio de ajudá-las a se regular emocionalmente terão melhor adaptação ao mundo.

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