O que é TDAH? Quando precisamos tratar?

TDAH significa Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade e Impulsividade. Pensando apenas em sintomas de desatenção ou impulsividade, qual de nós não os tem em algum momento ou situação específicos?

Por cansaço e pouco sono ou mesmo por pura ansiedade podemos apresentar sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade.

Mesmo em condições de normalidade podemos, depois de algum tempo de concentração e dedicação à uma atividade, nos pegar “voando” em algum pensamento.

“Voar” é humano, faz parte de todos nós, assim como podemos ter alguns momentos de agitação e impulsividade.

Quando isso deixa de ser natural para ser considerado transtorno? Literalmente, quando existe prejuízo no dia a dia em vários ambientes.

Quando digo que existe comprometimento funcional estou dizendo que a criança destoa dos pares, crianças da mesma idade e submetidas a condições semelhantes.

Muito do que é observado são sintomas do dia a dia em diversos cenários que podem provocar impacto e prejuízo nas atividades diárias.

Normalmente, os meninos hiperativos aparecem com diagnóstico logo nos primeiros anos de vida. É frequente, mães e cuidadores estarem exaustos com os cuidados de crianças hipercinéticas (àquelas que são mais rápidas e agitadas que os outros).

Os hiperativos são crianças que correm risco o tempo todo, ao subir e escalar os objetos mais impensados. Não é infrequente que essas crianças quebrem braços e pernas ou se machuquem. São frequentadores das enfermarias das escolas e clubes, sendo conhecidos pelos pequenos e grandes machucados.

Para alívio de todos, a hiperatividade é um dos sintomas que usualmente respondem bem ao tratamento medicamentoso e comumente também melhoram ao longo do tempo. Raramente passam desapercebidos e no ambiente escolar são frequentes os relatos de que não param quietos e que tem dificuldade em manter-se na roda de atividades desde a pré-escola.

Os meninos e meninas muito desatentos destoam principalmente no ambiente escolar, principalmente ao iniciar o período em que a escola tem cobranças maiores. Geralmente o desempenho é insatisfatório e aquém do potencial da criança. É frequente que tenham prejuízo escolar e sejam diagnosticados mais tarde que as crianças com sintomas de agitação. O diagnóstico acontece quando estão entre 6 e 11 anos. Algumas medidas escolares, familiares e médicas podem facilitar o encaminhamento, principalmente escolar, dessas crianças. E quanto antes vier o diagnóstico, menor o prejuízo. Fiquemos atentos em especial às borboletinhas!

A forma mais comum de TDAH é mesmo quando sintomas de desatenção e hiperatividade/impulsividade se encontram trazendo impacto dos dois domínios. Essas crianças compartilham riscos e demandam que os pais e cuidadores tomem algumas medidas.

Por algum tempo as escolas achavam que o TDAH não existia, que era apenas o resultado de uma falência educacional onde professores não estavam engajados e motivados para promover a educação das crianças ou simplesmente estavam cansados demais. Podemos sim ter falência educacional e métodos inadequados para uso generalizado em todos, mas temos sempre que considerar a individualidade e a variabilidade de cada um de nós. Nossas pequenas variações genéticas e comportamentais promovem demandas de estratégias individualizadas.

Está certo quem pensa que com atendimentos individualizados podemos prover melhoria acadêmica, mas temos que pensar também que não é viável economicamente manter professora particular disponível, para cada aluno, em cada cenário seja doméstico ou escolar. Algumas estratégias podem ser facilitadoras e podem garantir individualidade associada a viabilidade. Bem, esse é um daqueles difíceis encontros entre o ideal, o possível e o razoável. E sem dúvida o razoável é o que devemos procurar para dirimir pelo menos o impacto acadêmico da criança com TDAH.

Aos pais um aviso: com todas as estratégias que podemos ensinar, ajudar, desenvolver, personalizar, essa criança com diagnóstico de TDAH ainda vai requerer ajuda para conquistar o sucesso acadêmico. Não buscaremos o perfeito ou o ideal, não serão crianças com notas para além de 90% do total. Buscamos o razoável entre a nota que conseguimos conquistar sem grandes complicações e consequências para o indivíduo com diagnóstico (podemos discutir mais em outros posts…afinal quais os ônus de 90% + da nota total para alguém com TDAH?). Precisamos mesmo saber se podemos permitir e garantir o aprendizado.

Então, o maior compromisso deve ser com estratégias para aprender o conteúdo, aprender a estudar e desenvolver autonomia para estudar. Precisaremos seguir no mesmo barco sempre: médico, professor, família e qualquer outro suporte que a criança possa precisar.

É muito comum encontrarmos em alterações de neurodesenvolvimento a partilha das culpas: pais, escolas, médico, tratamento. Todos em algum momento podem ser culpados conforme a conveniência de alguém, mas esse é um caminho ruim. A partilha de culpas não é geradora de cumplicidade, mas de acusações que só podem impactar negativamente sobre o nosso resultado desejável.

Depois de muitos atendimentos ousamos acreditar que a aliança terapêutica absolutamente cúmplice, em cada momento, é sempre a melhor alternativa. Lembramos que nesse barco somos todos aprendizes e estamos juntos por um bem maior, que é o bem-estar de curto, médio e longo prazos de uma criança, adolescente e mesmo adulto. Mantida essa meta será mais fácil trilhar o caminho que, contudo, nunca é fácil.

O diagnóstico de TDAH nunca se baseia nos déficits em apenas um ambiente, essa é uma forma de sabermos que aquelas são características daquela pessoa, encontradas, portanto, em vários cenários e sempre diante da premissa de que devem ser registrados e contabilizados apenas naqueles casos em que houver impacto funcional.

Os impactos podem ser registrados em situações de convivência com outras crianças, tais como em momentos de lazer, em igrejas, escolas, clubes e atividades de recreação. Quase sempre por meio da comparação consciente ou não dos comportamentos, afinal nosso cérebro é comparativo e observamos que há padrões diferentes de comportamentos com relativa facilidade.

O impacto acadêmico é mais rastreável e todos ficam atentos, em especial em tempos em que a escola aumenta a demanda, como nos períodos de alfabetização ou quando a criança migra de duas professoras e matérias no 5º ano do Ensino Fundamental para as 8 ou mais matérias do 6º ano do Ensino Fundamental.

É importante combinarmos TUDO com a escola e professores envolvidos, o pior cenário, que acontece com alguma frequência, é aquele onde a criança ou adolescente que todo ano (ou até mais frequentemente) troca de escola.

Trocar de escola pode ser necessário e até ótimo, desde que a prioridade máxima dessa troca seja estabelecer uma relação de muita parceria com a coordenação pedagógica, direção, professores, disciplinadores e quem mais houver no ambiente escolar. Nunca foi mais aplicável do que no cenário da escola a máxima de que precisamos “falar a mesma língua” para que a criança ou adolescente sinta-se organizado e seguro para desenvolver-se no ambiente escolar.

Crianças, adolescentes e mesmo os adultos que mantém os sintomas apresentam outros impactos ao longo da vida. Entre os impactos é importante lembrarmos do comprometimento da autoestima e da socialização, que comumente acontecem.

Algumas características em especial das crianças com TDAH é que essas pessoinhas não têm insight de seu transtorno e não percebem seus déficits. As vezes essas características se manifestam com a inocência de se acharem o melhor do time e descreverem com exaltação suas habilidades, sem que essas possam ser verificadas na prática. Outras vezes aparecem sintomas nas tentativas de se esquivar de culpas e responsabilidades. Para nós adultos, conscientes do transtorno em todos os seus aspectos, vale mais treinar os olhos, ver as pequenas fofuras de cada dia e cultivar a generosidade. Afinal, nenhum de nós precisa aprender que é pior do que se achava ser?

Vamos trabalhar pela redução de danos… É descrito que pessoas com esses diagnósticos possuem um risco maior de apresentar transtornos psiquiátricos ao longo da vida. Na infância, é frequente que apresentem sintomas de oposição, transtornos de coordenação motora e dislexia. No fim do período escolar e início da puberdade é comum aparecerem com transtornos de ansiedade e depressão.

Você achava que já era muito complexo sem saber desses detalhes?

Cuidar de TDAH, assim como o Brasil, não é para iniciantes. É um trabalho de treinamento contínuo, treinamento de maratonista com várias situações de sprints. Precisa de fôlego, muito fôlego. E a sensação de exaustão as vezes é uma constante. Nesse treinamento muitas conquistas dependem de uniões, mas nem todos gostariam de se unir em torno do objetivo. Precisamos estar motivados por nós e por quem mais for necessário. Precisamos tirar forças, até quando elas não existirem, vislumbrando apenas a linha de chegada e a meta final, que é permitir o melhor desenvolvimento da pessoinha a qual estamos dedicados.

Dito isso, vamos ler aquilo que pudermos, aqui e em outras fontes, vamos nos informar. Coragem! Estaremos por aqui com informações acuradas, quanto aos aspectos científicos e respaldados pela nossa experiência, e nos comprometemos a ser sempre zelosos com o princípio de não-maleficência. Lembremos de manter nossos pactos e renová-los sempre que necessário, cultivando relações e reunindo todos nos cuidados da pessoa com TDAH, para incluí-la otimizando suas chances e perspectivas e criando sucesso.

Um local aonde sempre conseguimos boas informações sobre TDAH é no site da ABDA (www.tdah.org.br) , uma associação de pais que disponibiliza livros e cartilhas bastante claros quanto ao TDAH.

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1 comentário em “O que é TDAH? Quando precisamos tratar?”

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